Do mesmo cineasta de ‘Eu Não Sou o Teu Negro’ , o documentário ‘Orwell: 2+2=5’ carrega força política
George Orwell, cujo verdadeiro nome era Eric Arthur Blair, é o eixo central deste documentário que investiga como a verdade pode ser moldada e instrumentalizada por estruturas de poder. Após cerca de cinco anos atuando como policial imperial na Birmânia colonial, experiência que o colocou a serviço do Império Britânico, ele passou a perceber que estar do lado da lei não significa necessariamente estar do lado da justiça. Essa ruptura moral se torna a base para uma reflexão que atravessa suas obras e que o filme resgata ao conectar cartas escritas no fim de sua vida com acontecimentos contemporâneos.

Dirigido por Raoul Peck, cineasta também responsável pelo aclamado Eu Não Sou o Teu Negro , o documentário carrega a mesma força política e ensaística presente em sua filmografia. Vale lembrar que Eu Não Sou o Teu Negro foi amplamente reconhecido, inclusive citado por Barack Obama como uma das obras essenciais para se assistir, o que reforça o peso autoral e o compromisso de Peck com narrativas que confrontam estruturas de poder e desigualdade histórica.
A obra mostra como as distopias de 1984 e Revolução dos Bichos não são tão distantes da realidade. A famosa ideia de que “2+2=5” simboliza a imposição de uma mentira coletiva como verdade oficial, algo que o documentário relaciona à desinformação nas redes sociais, à construção quase religiosa de lideranças políticas e ao poder dos algoritmos em moldar percepções. Mesmo diante de fatos verificáveis, a crença passa a ter mais força do que a evidência, exatamente como Orwell previu.

Um dos pontos centrais é a análise da linguagem como ferramenta de poder. Termos como “pacificação”, “uso legal da força”, “corte de custos” ou “recessão” aparecem como exemplos de como palavras podem suavizar violências, desigualdades e decisões políticas que afetam diretamente a vida das pessoas. O filme também discute o papel da mídia e das instituições, sugerindo que críticas limitadas por interesses econômicos não diferem tanto de mecanismos de controle narrativo retratados em 1984, incluindo paralelos com o contexto brasileiro e grandes conglomerados de comunicação.
O documentário ainda aborda a desigualdade econômica global, mostrando o crescimento acelerado da riqueza concentrada em cerca de 1% da população em contraste com os outros 99%. Mais do que um dado econômico, isso surge como evidência de estruturas que se perpetuam: quanto maior o poder financeiro, maior a capacidade de influenciar políticas, instituições e discursos. A pergunta implícita é direta e desconfortável: a pobreza existe por escassez real ou por distribuição desigual em um mundo que já produz riqueza suficiente?

Qualitativamente, o filme é extremamente bem construído. As imagens são escolhidas com precisão, inclusive quando utiliza material gerado por inteligência artificial, o que não apenas funciona esteticamente, mas também escancara o potencial perigoso dessa tecnologia como nova ferramenta de manipulação narrativa. A construção sonora é outro destaque: a respiração cada vez mais ofegante na narração que simula Orwell cria uma sensação física de urgência, como se o próprio mundo estivesse perdendo o ar diante da repetição histórica dessas estruturas de poder. Esse recurso sonoro reforça a tensão crescente e a necessidade de uma virada coletiva.
Sem buscar um formato jornalístico tradicional, o documentário aposta na reflexão. Ele não pretende entregar respostas, mas provocar incômodo, questionando o quanto a sociedade permite ser manipulada, muitas vezes por causa do próprio individualismo e da passividade coletiva. A montagem, a narrativa, a linguagem semântica e o desenho de som trabalham em conjunto para transmitir a mensagem de forma poderosa e coerente.
No fim, Orwell: 2+2=5 não apenas discute a manipulação da verdade, ele também celebra Orwell como um dos romancistas mais importantes da história contemporânea, mostrando que suas ideias permanecem não só relevantes, mas urgentemente atuais. É um documentário inquietante, bem realizado e intelectualmente provocador, que ecoa muito depois dos créditos finais.



