Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é uma obra emocionante e deslumbrante — e já surge como forte candidata ao Oscar
Dirigido por Chloé Zhao, Hamnet é uma ode ao teatro clássico, ao amor e ao luto — um filme que funciona como uma alegoria sensível sobre a vida antes da criação de uma das maiores tragédias da literatura: Hamlet.
A trama se passa na Inglaterra do século XVI, durante o período elisabetano, e acompanha a relação entre o jovem William Shakespeare (interpretado por Paul Mescal) e sua esposa Agnes, vivida de forma arrebatadora por Jessie Buckley. Curiosamente, Agnes é o nome usado no filme para a mulher que historicamente conhecemos como Anne Hathaway, uma escolha que reforça a proposta mais íntima e subjetiva da narrativa.

Agnes é retratada como uma mulher conectada à natureza, criada em meio a costumes místicos e conhecimentos de cura, o que traz uma camada espiritual muito bonita à dinâmica familiar. Já Shakespeare surge como um jovem sonhador, perspicaz e apaixonado. Alguém movido tanto pelo amor quanto pela obsessão pela própria arte. Paul Mescal entrega um personagem cheio de nuances, mostrando desde o ímpeto romântico inicial até as concessões dolorosas que precisa fazer para construir sua carreira como dramaturgo.
O casal tem três filhos, e é a partir de uma tragédia familiar, relacionada às epidemias que assolavam a Europa na época e que o filme mergulha em sua dimensão mais emocional. A partir desse ponto, Jessie Buckley domina a tela com uma atuação intensa e profundamente humana, capaz de emocionar sem recorrer ao exagero. É uma interpretação que parte do silêncio, do olhar e da respiração, algo raro no cinema contemporâneo.

Visualmente, o filme é deslumbrante. A fotografia de Łukasz Żal transforma cada plano em uma pintura em movimento, respeitando o formato de tela amplo para criar composições que lembram quadros clássicos. A reconstrução de época, especialmente os ambientes teatrais de Londres e Stratford, impressiona pela fidelidade histórica e pela sensação de imersão. O espectador não apenas vê aquele mundo; ele sente aquele mundo.
Os figurinos também merecem destaque, com texturas e materiais que evitam o artificialismo comum em produções de época, contribuindo para um realismo quase tátil. A trilha sonora de Max Richter segue o mesmo caminho: melancólica, dramática, mas nunca manipulativa. A emoção nasce da história, não da música. E isso faz toda a diferença.
Outro ponto forte é o elenco infantil, especialmente o jovem ator que interpreta Hamnet, trazendo uma vulnerabilidade genuína que potencializa o impacto emocional da narrativa, principalmente nas cenas que envolvem a relação com o pai.
O roteiro tem uma linguagem poética que transita entre o subjetivo e o empático. Em vários momentos, o espectador se reconhece nas dores daquela família. É justamente essa identificação que torna o filme tão poderoso: cada pessoa projeta ali suas próprias perdas, seus próprios silêncios.
Em uma era de cinema acelerado, cheio de cortes rápidos e estímulos constantes, Hamnet segue na contramão. É um filme contemplativo, longo, mas nunca cansativo. Porque a história envolve, pulsa e respira no tempo certo.
Chloé Zhao acerta em cheio ao transformar uma narrativa histórica em uma experiência sensorial e emocional. O filme é bonito do início ao fim, poético, respeitoso com o teatro, com Shakespeare e com a cultura inglesa.
É o tipo de obra que não apenas se assiste, se sente.
E, sinceramente, é difícil encontrar defeitos.
Recomendadíssimo.



